Em dezembro de 2014 parti para Portugal com o intuito de conhecer um movimento social que me fascinara alguns meses antes, quando comecei a ler sobre ele. A seguir contarei um pouco sobre a transição que encontrei em Portugal, o país de meus avós. E agora, também o meu.

Primeiro gostaria de apresentar-me. Sou Ernesto Luiz Marques Nunes, um luso-brasileiro, cientista social por formação e professor universitário por vocação. Nasci em Santos, uma cidade litorânea localizada no Estado de São Paulo, no Brasil, por onde passaram muitas levas de imigrantes portugueses (como meus quatro avós, todos da Guarda) que para lá foram ganhar a vida. Hoje eu venho fazendo o caminho de volta, reconectando-me à terra que passei a amar nas estórias contadas pelos meus avós.

Conheci o movimento transição “por acaso”, no início do segundo semestre de 2014, quando iniciei a preparação de um projeto de doutoramento para a Universidade de Campinas, no Estado de São Paulo. Por acaso? Começo a desconfiar que não!

Explico: estava a procura de um movimento social que tivesse realmente algo a dizer sobre os impactos das mudanças climáticas em curso no planeta e que pudesse ser meu objeto de estudo no âmbito de um doutoramento. Mas nenhum dos movimentos sociais que eu pesquisava me dava aquele “estalo”.

Foi quando, ao fazer uma limpeza em minhas gavetas, deparei-me com um folheto de divulgação do Transition Granja Viana, uma iniciativa desenvolvida na cidade de Cotia, localizada na Região Metropolitana de São Paulo, e da qual só me lembrava de ter dito mentalmente ao receber o folheto, meses atrás: “aqui deve ter coisa muito interessante!”

Ao reler o folheto do Transition Granja Viana interessei-me pelo seu conteúdo, principalmente este trecho: “As iniciativas de transição promovem um processo de que engaja pessoas, comunidades, instituições e cidades em ações de longo alcance, necessárias para aliviar os efeitos das mudanças climáticas e escassez de petróleo”.

O que li deixou-me muito empolgado e passei a procurar na Internet alguém que pudesse apresentar-me às iniciativas de transição em São Paulo. Nessa buscas encontrei Isabela Menezes,  uma entusiasta do movimento em transição em São Paulo, que desde o início foi muito solícita em dirimir minhas dúvidas sobre o movimento e em informar-me onde as iniciativas estavam ocorrendo. Sem Isabela provavelmente não estaria escrevendo este relato. Sempre serei grato a ela por proporciar-me o início dessa jornada pela transição.

Pois bem, a Isabela apresentou-me Filipa Pimentel, que apresentou-me Carla Oliveira, da iniciativa de transição de Linda-a-Velha, David Avelar da FCUL e Filipe Matos, da iniciativa de Telheiras. Eu, que não conhecia nenhuma iniciativa no Brasil, estava prestes a conhecer logo 3 em Portugal!

Fiz contacto imediatamente com Carla, David e Filipe. Todos se prontificaram a apresentarem-me as iniciativas nas quais estavam envolvidos.

E em janeiro de 2015 – mais precisamente no dia 3 – lá estava eu no Marques de Pombal, em Lisboa, a esperar Carla e Fernando Oliveira, meus anfitriões da transição de Linda-a-Velha, uma freguesia do conselho de Oeiras. E que anfitriões! Passamos uma tarde inteira conhecendo as instalações da iniciativa, em um espaço público que o grupo de Linda-a-Velha dinamiza, seja mediante o cultivo de uma simpática horta comunitária (coordenada com imenso dinamismo por Teresa Brito) seja promovendo oficinas de consertos de bicicleta (sob a responsabilidade do gaúcho Silvio) ou mesmo incentivando os moradores da localidade para aproveitarem o salão como espaço de convivência.

De início aprendi que uma horta tem um potencial imenso para acolher, juntar pessoas e propiciar que a energia circule e se materialize em ações concretas. Aprendi também que a bicicleta é elemento central em um contexto de transição para um planeta que deve poupar energia e que espaços públicos – tão escassos nos grandes centros urbanos – devem ser ocupados, em prol da comunidade, ainda que dê muito trabalho administrá-los (o retorno em termos de empoderamento da comunidade pode demorar a surgir, mas sempre surge e é lindo ver isso ocorrer).

Em Linda-a-Velha, além de Fernando e Carla, conheci o Gonçalo Pais e sua bicicleta pau-para-toda-a-obra, a musicista Marta Lourenço, que tira um som maravilhoso da viola de arco e o senhor Silvio, especialista em diversos saberes, entre eles o conserto de bicicletas e a confecção de  instrumentos musicais, como o Hang Drum. A transição ocorre de forma mais agradável ao som de boa música…

ITL gente ITL Silvio

Todos, de alguma forma e do seu jeito, contribuem para tornar público o espaço de convivência que ali estabeleceram. E da convivência das pessoas que vivem no entorno daquele espaço nasce um sentimento de coesão e de respeito com o que é público. Tarefa que não é nada fácil, como atestam meus amigos de Linda-a-Velha, relatando que a desconfiança dos vizinhos é por vezes maior do que a vontade de adentrar aquele espaço que os cerca e conhecer o que ali se desenvolve. E que “é deles também; a eles pertence”, nas palavras de Fernando Oliveira.

Já estava encantado pela atmosfera daquele sítio – e como não se sentir encantado onde se lê em uma de suas paredes que “o ideal da vida é ser árvore” – e pelas pessoas que lá conheci, mas ainda tinha mais o que ver nesse dia tão especial.

Pois bem, após ser apresentado à horta comunitária, a oficina de conserto de bicicletas e o espaço de convivência de Linda-a-Velha, fomos visitar uma escola local – o Jardim de Infância José Martins – onde os princípios da transição ali estavam sendo implementados também, com o apoio do seu corpo docente.

Nessa escola também havia uma horta (como hortas tem poderes especiais!), cultivada pelos miúdos que nela estudavam. Acompanhar o crescimento de verduras, legumes e frutas – o que não costuma fazer parte da educação de uma criança da cidade grande – além de sua beleza inerente possibilita compreender os desafios que os elementos da natureza enfrentam em seu processo de desenvolvimento. Na José Martins os miúdos acompanham esse processo completo, desde a preparação das sementes até a apreciação do sabor do que plantaram.

Esse primeiro contato com a transição sempre me faz refletir sobre algo que considero fundamental: para realizar essa tão sonhada mudança precisamos recuperar saberes tradicionais por vezes esquecidos. Saberes que a Academia e o mundo empresarial não valorizam a contento. Mas não só saberes! A transição requer valores diferentes dos que estão postos por modelos ultrapassados que não empoderam comunidades.

Pois bem, o que começou como um interesse acadêmico em meados do ano passado foi se transformando em algo maior. Na minha volta ao Brasil passei a acompanhar mais de perto as iniciativas de transição. Mas já estou de malas prontas! Em julho próximo pretendo conhecer a Ecoaldeia de Janas e a Aldeia das Amoreiras, e revisitar as iniciativas de Linda-a-Velha, Telheiras e da  FCUL.

Ah, faltou comentar sobre minhas visitas às iniciativas de Telheiras e da FCUL. Mas isso farei em uma próxima oportunidade! Até breve!