Se a nossa vida é um mistério em si, a vida de um grupo, de um ecosistema humano é ainda mais! A Iniciativa de Transição de Linda-a-Velha, ITLAV, é dona de um percurso único e misterioso que convida a pensar em muitos dos mistérios da natureza humana, das relações e do que é realmente importante mas também essencial para prosperar.

Não temos a menor ideia se aquilo que descobrimos se aplica a nível global, mas anunciamos orgulhosamente que para nós prosperar como grupo tem a ver com «Vizinhar», o nosso novo verbo!

Começámos como um grupo de pessoas, na maioria desconhecidas entre si, que sentiu e seguiu o apelo da sementinha de Transição que um de nós plantou no bairro.

Dos primeiros passos, das primeiras reuniões de divulgação e passagem de filmes, ao esplendor da ação de grupo passou relativamente pouco tempo, nem seis meses.

Foi-nos concedido um espaço por parte da Junta de Freguesia, e por isso os nossos fins de semana e a nossa energia dividiam-se entre recuperar o espaço, utilizá-lo para cursos e criar grupo, estar juntos.

Em circunstâncias assim, «fazer» era uma tentação inevitável! Havia tanto para fazer e tínhamos uma lista de espera interminável em termos de sonhos e projetos para o espaço e para o grupo!

E por muito que a pessoa que semeou o projeto de Transição em Linda-a-Velha, digamos o nosso jardineiro, nos advertisse e recordasse (e se esforçasse por recordar-se a si próprio) dos perigos da ação rápida, do burnout e de muitas outras coisas que se podiam resumir talvez ao dilema entre «a velha forma de fazer as coisas» e «uma nova forma de fazer as coisas», nós não conseguimos resistir às velhas tentações!!!

Por isso um dia colapsámos. Os mais positivos diziam que tínhamos hibernado, os mais negativos que estávamos em coma. O certo é que o grupo deixou de se encontrar como tal, de reunir, de trabalhar em conjunto, de planificar, de sonhar e mesmo de agir como grupo.

Alguns ainda tomavam café juntos, outros ficaram isolados. Uns simplesmente ressentiram-se daquela solidão imensa, outros procuraram dentro da comunidade outros caminhos, e levaram com eles a marca que a Transição tinha deixado nas suas vidas: uma ciclo-oficina onde se sonhava e construía um mundo de locomoção lenta e sustentável,  take aways macrobióticos para a comunidade, uma cooperativa de turismo para gente com capacidades físicas reduzidas, um centro de atividades moribundo que voltou à vida e se tornou num lugar de encontro e de convergência de todo o tipo de atividades para a comunidade (yoga, pilates, astrologia, música, atividades seniores, shiatsu, karaté, malha, ballet, um projeto de atividades de tempos livres para crianças e apoio ao ensino doméstico e tanto mais), o acolhimento da Prove ( um projeto de distribuição de verdura e fruta regional/local que providencia cerca de 100 cabazes semanais), projetos arrojados ganhos em Orçamento Participativo – a saber, a remodelação do mercado local, subaproveitado, e uma quinta pedagógica com hortas comunitárias – e houve até quem se juntasse aos órgãos de poder local, dando um novo sentido às atividades propostas e acolhidas pela Junta (feiras de 2ª mão e de artesanato, mostras de terapias alternativas e festivais de dança)… não estávamos parados, apenas separados e por isso, faltava alguma coisa!

Foi preciso deixar o tempo passar, com teimosia, com aceitação, com confiança, sem perder de vista aquilo que um dia tínhamos tido e o bom que tinha sido.

E passámos a ser uma vizinhança ativa, uma vizinhança resiliente, onde as mães podiam contar umas com as outras para trazer os filhos da escola, onde tomar café juntos era um verdadeiro prazer… uma festa aqui, um jantar ali… uma conversa nostálgica… cada um fazendo o seu caminho e entrecruzando-nos frequentemente.

Depois um de nós trouxe de um workshop de Transição, o Thrive, uma ferramenta de análise do estado da iniciativa (o Check up): e foi simplesmente maravilhoso ver como todos juntos outra vez analisávamos as nossas fraquezas e forças, como relativizávamos, como reequilibrávamos perspectivas, como entendíamos e víamos o percurso que fizemos juntos como se fosse um rio. Mas sobretudo era maravilhoso ver como nos ríamos, como brincávamos com o passado, como tínhamos amadurecido tanto nos nossos relacionamentos ao ponto de falar dos momentos delicados do passado com ligeireza e humor. E sobretudo, como tínhamos aprendido tanto juntos!

Formar uma Iniciativa de Transição foi como embarcar numa viagem rumo ao desconhecido, não sei se descobrimos aquilo que queríamos descobrir, se desembarcámos onde queríamos desembarcar, mas naqueles dois encontros para fazer o Check up do Thrive, apercebemo-nos claramente de termos chegado a algum lugar bem bonito! Éramos vizinhos e amigos, unidos numa rede forte e capaz de sobreviver a desafios importantes, éramos (e somos) gente resiliente!

O Thrive não chegava, não puxava para fora as partes delicadas que nos tinham feito colapsar, não abordava as estruturas e as malformações invisíveis de um grupo e por isso decidimos criar a nossa própria ferramenta de análise interior.

Outra vez foi genial, perceber e reconhecer juntos o que tinha conduzido ao desmantelamento da força do grupo. Para mim, o momento mais poderoso foi aquele em que nos permitimos olhar também para as características e escolhas pessoais que poderiam ter contribuído para o colapso. Foi como se finalmente o magnetismo daquela «coisa» sombria e invisível que ainda existia entre nós se tivesse dissipado. Para terminar de curar o grupo: uma jantarada!!!

… Recentemente recebemos cá a Sophie Banks, preparámos uma oficina de Transição Interior e a Sophie ofereceu-nos também uma sessão de Revitalise (ferramenta de revitalização para grupos)  que nos fez perceber o quão resilientes e comprometidos estamos com isto que é sermos vizinhos em transição.

Daí para a frente tem sido um processo suave e carinhoso de recuperar dinâmicas – não temos um manual de instruções sobre como fazê-lo, penso que ninguém tem! Temos tentado dividir o nosso tempo entre estar juntos para conviver, preparar algum evento e observar e refazer os nossos acordos de grupo e a visão do que é a nossa intenção como Iniciativa de Transição.

Isto é 100% experimental e por vezes parecemos um casal que depois de se ter separado decide voltar a estar junto! Vamos palpando terreno e tentando encontrar o modo de nos «reconciliarmos» de forma saudável e sustentável, enquanto manobramos também todos os outros desafios e necessidades que as nossas vidas individuais e familiares apresentam.

Eis o mistério: como fazê-lo de forma graciosa e efectiva?!

Sabemos que queremos estar juntos para vizinhar mas também sabemos que queremos estar juntos para ser e para fazer a mudança que queremos ver no mundo. Sobretudo, sabemos que sem uma destas duas faces estamos incompletos!

(Texto de Rita Afonso – Iniciativa de Transição de Linda-a-Velha)