3º Encontro Transition Towns Brasil

Deixamos nesta noticia 3 relatos sobre o 3º Encontro TTBrasil que ocorreu nos dias 26, 27 e 28 de Fevereiro na cidade de São Paulo.

Estas 3 visões, da Andreia recentemente ligada à Transição, do Ernesto, investigador que procura informações sobre as Iniciativas há aproximadamente dois anos e da Mónica Picavea uma das organizadoras do Encontro.

3TTB

Iniciamos pela Andreia Machado e apelidou o seu texto de “A Minha Transição”

“Sou brasileira e moro numa cidade litorânea de superlativos. Santos abriga o maior porto da América Latina e um lindo jardim de orla, o maior do mundo. Entretanto, apesar das belezas naturais e do grande valor histórico e cultural desse município, enfrentamos há tempos diversos problemas, também superlativos, que vão desde o alto custo de vida e constante especulação imobiliária, a taxas altíssimas de homicídios e, para completar a lista, abrigamos a maior favela de palafitas do país, onde cerca de 20 mil pessoas moram de forma precária e em meio a um lixão.

Minha constante preocupação, não só com o bem estar dos mais próximos, mas com a sobrevivência das comunidades menos favorecidas à minha volta, a triste realidade social do meu país e as sérias consequências que as emissões humanas de gases do efeito estufa já começam a trazer para os animais humanos e não-humanos deste planeta, me faz há anos buscar alternativas para uma vida mais simples, compassiva e colaborativa.

Há mais ou menos um ano e meio, ouvi falar das iniciativas mundiais de transição. Fiquei muito feliz, não só por saber que fazia parte de uma mudança maior que eu já havia iniciado internamente e ao meu redor, mas também pela possibilidade de conhecer pessoas de pensamento e atitudes semelhantes às minhas. Em duas viagens recentes a Portugal isso ficou ainda mais forte pois fiz amigos e conheci iniciativas rurais e urbanas incríveis.

No final do ano passado, participei de um curso de Permacultura em São Paulo, e desde então venho pesquisando por conta própria sobre a descarbonização do planeta. A cada palestra e documento compartilhado por essa comunidade formidável, fico mais otimista em relação a um futuro que já começou e que me parece uma das únicas respostas à destruição do meio ambiente e instabilidade económica que nos assolam em nível mundial.

Participei no mês passado do “Terceiro Encontro Brasileiro da Transição” e conheci pessoas extraordinárias, muito atuantes dentro do movimento e que tem prazer em passar seus conhecimentos. No evento, organizado por Isabela Gomes de Menezes e Mónica Picavea, que além de impulsionar a Transição no Brasil, nos fazem sentir queridos e acolhidos imediatamente, passei dois dias imersa em palestras e atividades literalmente transformadoras.

Xaba Om introduziu técnicas de Dragon Dreaming que eu desconhecia até então; a americana Vicky Robin falou sobre a importância do apoio à agricultura local; Mónica Picavea explicou a REconomia; Ricardo Zylbergeld, com sua “Tecnologia para Engajamento”, ofereceu ferramentas tecnológicas preciosas; Cláudia Visoni discorreu sobre hortas comunitárias e o prazer de cozinharmos o que plantamos; Lala Deheinzelin falou sobre fluxonomia e futuros possíveis. E ainda fizemos videoconferências com Filipa Pimentel, direto de Bruxelas, e Rob Hopkins, o idealizador do Transition Movement, direto da Inglaterra.

Todas essas atividades me aproximaram ainda mais do movimento (já sou articuladora regional!) e das pessoas que estavam lá comigo aprendendo e compartilhando conhecimento. Voltei para a casa com o coração cheio de alegria, a cabeça cheia de ideias, e atitudes prontas para serem postas em prática. Ah, e mil nomes de livros para ler.
Espero que aconteçam cada vez mais encontros como esse em todo o mundo, e que mais pessoas se consciencializem rapidamente da necessidade de nos unirmos para transformar este planeta num lugar saudável para se viver não só fisicamente, mas com igualdade económica e justiça social.

Já o Ernesto Nunes, a desenvolver um trabalho de investigação retirou deste Encontro as seguintes notas:

“Faz pouco mais de 1 ano em que tomei contato pela primeira vez com o Transition Town Movement. E foi em Portugal, em Linda-a-Velha, quando conheci o trabalho desenvolvido pelo Fernando e a Carla Oliveira, o Gonçalo e a Paula Pais, a Marta Lourenço e tantos outros transitioners dedicados, como já relatei em um texto com as minhas impressões publicado no blog da Transição Portugal.

Essa primeira “incursão ao campo” fundamentou a preparação de um projeto de doutoramento em Ciência Ambiental, posteriormente apresentado à apreciação do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP) e aprovado para iniciar-se em 2016. Um estudo comparativo das iniciativas da Transição no Brasil e em Portugal.

Nos dias 26, 27 e 28 de fevereiro foi realizado na cidade de São Paulo o 3º Encontro da Rede Brasileira das Cidades em Transição. E com ele iniciei o processo de observar para a minha pesquisa de doutoramento o que os transitioners brasileiros estão a fazer para criar resiliência às comunidades onde vivem.
Entre as diversas impressões que ficaram desse encontro gostaria de salientar três.

A primeira delas é a percepção de que o que o movimento cidades em transição reúne pessoas que, independentemente de suas origens e formações, desejam sonhar um mesmo sonho. Um sonho que seja coletivo e não apenas individual. Para isso devem fazer com que seus sonhos individuais “morram” para que sonhos coletivos possam deles nascer, como foi enfatizado em discussões e vivências promovidas ao longo dos três dias de encontro. Se isso realmente ocorre (ou ocorrerá nas novas iniciativas iniciadas) verificarei posteriormente in loco, nas iniciativas escolhidas para investigação.

A segunda diz respeito à impressão de que a transição no Brasil é predominantemente feminina, com uma proporção muito maior de mulheres do que de homens participando das iniciativas. Isto é muito interessante de observar, pois a conformação de mundo e o modelo de sociedade que os transitioners desejam superar está assentado na preponderância de valores masculinos, em que a extrema competição e a força são as forças motrizes. Avançar para uma nova condição que seja mais colaborativa, com mais diálogo e com ênfase no cuidar (das pessoas, das relações, do planeta) requer torná-lo mais feminino. Muito mais feminino…
A terceira e última impressão é a preocupação mencionada em diversos momentos dos três dias de encontro de que indicadores sólidos de impacto devam ser construídos (e compartilhados) pelos integrantes do movimento para mensurar a relevância das ações implementadas pelas iniciativas de transição no Brasil. Este último aspecto revela, aos olhos do pesquisador, um indicativo da maturidade de um movimento que, após o histórico de atuação no país nos últimos 5 anos, deseja ser reconhecido como um importante agente de transformação da realidade social brasileira.

O caminho que estas primeiras impressões irão tomar darei a conhecer mais detalhadamente ao longo dos próximos 4 anos, período do doutoramento que tem como “objeto” de estudo a Transição, tanto no Brasil quanto em Portugal.

P.S.: Agradeço o acolhimento que recebi neste evento de todos os participantes – principalmente a Isabela Menezes e Monica Picavea – que permitiram-me observar e extrair estas primeiras impressões para a minha pesquisa. “

Fiquem agora com o olhar de quem organizou pelas palavras da Mónica Picavea

“O 3o. Encontro Brasileiro das Cidades em Transição trouxe para nós um amadurecimento do movimento, onde foi possível antes de mais nada reconhecer que as iniciativas de transição, mesmo não tendo o nome de Transition Towns, ou de Cidades em Transição, existem e são bastante numerosas tanto na cidade de São Paulo, quanto em várias outras localidades do Brasil.

A efetividade e as ações transformadoras fazem parte do dia a dia de muitos grupos, que trabalham com áreas específicas, e vejo que o Movimento de Cidades em Transição é um aglutinador dessas experiências, e que um mundo mais bacana e mais cheio de propósito, se aproxima cada vez mais.
O encontro trouxe um compartilhar de experiências, e principalmente a criação de um horizonte comum, e de grupos de trabalho em busca deste sonho, que cada vez mais parece possível.

Cada grupo trouxe a experiência que lhe era mais interessante, e da qual fazia parte e a partir dela, foram sendo construídas as sinergias e melhores práticas.
O objetivo do encontro, é usar todas as iniciativas de Transição para criar mais iniciativas e cada vez mais atrair as pessoas para esse movimento.
Observamos que existe uma predisposição grande de todos para difundir essa nova forma de viver, com menos impacto, com mais propósito, e que criar as melhores formas para fazer isso, se faz necessário e urgente.

Grupos ligados à comunicação, mapeamento, eventos, jogo da transição e Projeto oleozinho, já nasceram e estão trabalhando para que cada vez mais tenhamos formas de mostrar às pessoas e fazê-las usufruir da experiência de fazer parte de um movimento de Transição e como criar um mundo melhor a partir das nossas ações conjuntas. Um grupo de pesquisadores também foi criado a partir deste encontro, para que as pesquisas e informações levantadas por eles, possam ser compartilhadas e para que cada um e o todo avance mais e mais, em busca de soluções.

Esse encontro, marca uma maior maturidade do movimento no Brasil, e uma união maior com outros movimentos que estão neste esforço de criar uma realidade mais interessante, menos impactante para o meio ambiente e com mais propósito em busca de um mundo possível e mais feliz.”

Agradecemos os contributos vindos do Brasil para esta edição da Folha de Couve.